terça-feira, 15 de novembro de 2011

Fardo de mim só

De corpo melindriso da dor fez malicia
Escapada profícua com as mãos, leves
Não tinha trouxa a carregar além da fome sua
O peso era só do corpo
Moral é um fardo pra vida justa
Tinha direito a ter lei própria
Razão ensaguentada de verdade até os olhos
Livre de dever, proprietário de si e apenas
Estranho dár-se a ter mais do que pode carregar
É assim que ando, fardo de mim só

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

esgoto

o lugar cheirava a merda
nadava o diabo no esgoto
esgoto minha alma suja
esgoto, esgoto, esgoto

de dentro da lama imunda
chamou-me para acompanhá-lo
esgotada minha alma
fui nadar com o diabo

...

Sinto o presságio do comum
O silêncio é tempo curto
Do contendo é um furto
Já não falta um

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

providência

Eu estava no fundo do ônibus, naquela última fileira, e ocupava três lugares. No meu lado direito, o banco da janela, deixei minha mochila e meu violão e, à minha esquerda, minha mala de rodinhas com roupa suja. Uma senhora morena, com rosto marcado por rugas e olhar cansado sentava à frente do violão e apoiava a cabeça na janela. No outro canto da última fileira, estava uma moça simples de uns 20 anos e na frente dela, outra moça simples de uns 20 anos. Nos outros lugares perto de mim não tinha mais ninguém.

Depois de uns cinco minutos de passeio, entrou um velho de mais ou menos 60 anos. Usava um pulôver azul marinho, uma camisa social azul claro por baixo, jeans e sapato. O cocuruto já estava careca e sua barba era branca e rala. Seus óculos de armação fina e dourada e lentes grossas, somados a um ar de aristocracia, pareciam entregar seu sofrimento por estar no coletivo.

Coloquei minha mala no colo, mas o velho sentou na minha frente – com metade da bunda para fora do assento e as costas na diagonal – ao lado da senhora que, para ele, podia ser sua faxineira. Do alto de sua cara fechada, olhou a mulher de cima a baixo, que percebeu e revidou com um olhar cabreiro. O velho, por sua vez, mandou a tréplica, agora com um ar de superioridade e nojo. Nenhuma palavra foi pronunciada.

Mais umas três, quatro paradas e entra um casal de jovens pombinhos. O rapaz tinha, no máximo 19 anos, era narigudo, tinha rosto e cabelo ensebados e vestia um moletom canguru preto. Transmitia insegurança, quando falava não se ouvia nada. A moça era o oposto, falava muito e alto demais e, apesar de ser toda desengonçada, parecia ter muito amor para dar.

Botei minha mala de roupa suja no colo de novo. Desta vez, o assento em que a mala descansava foi ocupado logo depois – a menina sentou sua bunda mole ao meu lado, entre eu e seu suposto namorado. No início trocaram carícias contidas e conversaram um pouco. Ela só falava merda e o cara só concordava.

Depois de mais uns cinco minutos na grande lata coletiva, a moça simples de uns 20 anos que estava na penúltima fileira puxou a cordinha e tomou seu rumo. Mal ela saiu e o casalzinho se levantou e pulou para o lugar vagado. O casal brigou pelo banco da janela como dois irmãos tolos que brigam todo dia. Ele ganhou e, para comemorar, lançou um baita sorriso maroto para amada.

Voltei minha mala de rodinhas para o assento ao meu lado esquerdo, para felicidade das minhas pernas.

Por longos minutos o casal manteve um entrelaçamento de mãos, pernas e línguas, para horror do velho, que agora estava na mesma fileira dos dois, separado apenas pelo corredor. A cada barulhinho de saliva ou estalo de lábios, a barriga dele parecia se embrulhar e, como que por instinto, olhava com nojo e reprovação para os dois pombinhos que, felizes da vida, nem notavam o moralista.

Foi na última parada, antes de o ônibus entrar no terminal, que o velho desceu – o ponto da Assembleia Legislativa, a casa das leis. Na calçada, dois negões e um cara com dreads andavam tranquilamente.

Parou nos degraus, por um instante, ao perceber os três pedestres que se aproximavam. E olhou para os dois lados, com medo, à procura de uma saída segura.

De repente, ficou tranquilo e desceu do ônibus.

Tentei imaginar o motivo da súbita confiança do velho. Talvez eu tivesse sido preconceituoso, talvez ele só hesitara nos degraus por não ter certeza do ponto onde deveria parar.

Então, torci todo o meu pescoço à direita, para tentar alcançá-lo com os olhos. Quanta tranquilidade, seu rosto até estava iluminado! – de azul e vermelho, que se revezavam com o giro das sirenes.

Duas viaturas, cercadas por uns quinze policiais mal encarados, que exibiam pistolas ou fuzis, estavam estacionadas logo atrás. Ainda bem. Se eles não estivessem ali, com certeza, o pobre velhinho passaria por apuros. Mais uma vez, os homem mostraram que o bem sempre vence o mal.

domingo, 6 de novembro de 2011

Ode ao amor

Quando eu não te quis
Pra mim,
Eu te quis então.

A tua solidão,
A minha solidão,
É isso o que me interessa:
A não pressa com as presas que dispomos
E laçamos, enfim,
O touro estabanado que mugia, há pouco,
Dentro de nós.

Não laçar:
Eis aí minha glória final,
Meu púlpito magistral de quem hoje ergue a espada e a voz,
Que dilaceram corações mesquinhos e
Cantam aos passarinhos a natureza dos sóis,
Mas que outrora já foi sim,
Escravo da falta maior.

O buraco inconfundível da intersecção chama-se “nós”,
Entidade essa que guardamos com os braços.

(mas os braços
são apenas braços:
requer-se mais!)

À maneira como os macacos dominaram um pedaço de osso,
- causa prima do nascimento do moço –
Criamos esses utensílios que alcançam mais
Que os braços,
Para então guardar com toda precisão,
O outro
Pra mim.

Homem-objeto-mundo
Homem-objeto-homem

Pela falta da posse,
Canto ao amor essa ode.

(cante)...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Nós

As certezas nos formam nós:
Desamarrar é diluir-se,
Estar livre
No deserto caminho
Da morte.

As certezas são nós
Nos fios sempiternos do eu.

(ideias, ideias,
palavras tão prontas,
verdades que erguem
a fortaleza magnífica:
bombas e canhões que aqui sou eu!)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

insônia

No escuro do meu quarto,
as folhas da bananeira
que o vento balança lá fora,
sussurram-me, devagarinho,
"dorme..."

mas eu não quero.

Aunque sea lo mismo, no soy yo acá

"Pocas mujeres pueden ser elegantes y lascivas al mismo tiempo. Yo aprecio la elegancia. Al ir en el estudio por cualquier razón, siempre cruzo con alguna balzaquiana, bien vestida. E incluso si estas mujeres no están a la altura de su belleza, me excitan. Me hacen pensar en lo que podría hacer en una hora encerrado com ellas, si tuviera la oportunidad. Cerrado durante una hora, para sumergir su boca-de-labios-importados entre las piernas y mi boca en las suyas. (...) Clavar las uñas en la piel madura mientras que el olor de la ingle raspada se extienda".

Carlos Fuentes

domingo, 30 de outubro de 2011

Um barco quebrado, um francês, um baiano, dois violões, ..., ..., ..., ..., ..., ..., ..., ..., ...

Presente

Se outrora fora dúvida,

por fraqueza, ou por fantasmas,

a certeza que hoje tenho

do bouquet a que pertenço,

lamento.


Pior seria a ciência que,

salve, não tenho,

de ser colhido e posto em vaso,

descontente com o que sinto.


Agradeço ao que pertenço

com amarras que ostento.

É de ganas o bouquet.

Reunido por teu vento,

que sopra.


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sol,
quantos já não piraram com você?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tai velho

Um herói. Meu herói estava ali, esparramado na minha frente. Foi vítima da própria
euforia. Deu-se em energia, aliás, como sempre fez, e restou flácido. Nem os heróis
estão imunes àquela malvada.

Acontece que ele podia.

Ele era um louco. Louco por se entregar daquele jeito. Quem além de um louco é capaz
de amar assim?

Era uma lenda que se apoiava no meu ombro. Eu sabia. Ele sempre soube, mas não sabe
disso. É um fanático. Ninguém segura um fanático. Ninguém que não seja ele mesmo.
Agora, enquanto lutava com um palheiro velho, ele desabafava. “Amanhã eu vejo. Hoje
me sinto mais velho do que sempre fui”. E era assim que ele se sentia. Admitia culpa
porque assim fazem os loucos. Só nunca se deu conta de que éramos nós os velhos que
lhe consumíamos a jovialidade.

Chorava a morte dos vinte. Estufava os pulmões para dizer – se fazer ouvir por aqueles
que já não se importavam – que ele tinha os olhos virados pro presente. “Do passado,
nem uma vírgula eu quero mudado”.

Trago tudo. Trago um bom trago. Me tragam. Me trazem pra cá, pra onde eu queria
estar. E o que eu levo são vocês. Comigo, ainda que na lembrança.

Não vi, nem ouvi nada. Pode ficar tranqüilo. Nada conta, mas conta comigo; e conto ele,
conto dele, contamos muito juntos; no fundo, quero mesmo que ele conte de mim. Se
precisar, conta pra mim; se não quiser, conta comigo mesmo assim.

E a gente canta a vida como se fosse um conto.

Eu já não sei se sou eu ou é ele quem está escrevendo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

canção da liberdade

vou pro mundo
pras pessoas
pros encontros
desde a tarde
à madrugada

sei que não é nada
todo esse dilema
falso-problema
força reativa

aqui está a vida
pelo menos agora
e isso também
é só o que sei
das voltas
que o mundo dá
há anos
zilhões de tempo
super-espaço
pra toda e única
sortuda vida
ser
em paz

mas os homens
merecem um só verso
de três palavras:
mas os homens
mas os homens
etc.

só por isso
porque hoje
sinto vivo
todo Não
deixo o grito virar canção
e parto comigo
ao infinito que existe
de barco e remos às mãos

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

alívio de sul

Primavera, horário de verão. Praia da Joaquina, Florianópolis, 27ºC de uma sexta-feira ensolarada. Na areia, bundas para cima, divididas por um fio; gordos com cor-de-turista; surfistas descansando e surfistas se aquecendo; mesas e cadeiras de plástico amarelo ocupadas pela mais variada classe de clientes e, entre eles, garçons se revezam servindo cerveja e petiscos. Entre eles, um se destaca. Alto; meia-idade; pele morena marcada pelo sol forte; sorriso no rosto, parcialmente encoberto por um bigode grisalho; barriga de chope. Como todos os funcionários do bar, veste uma camisa polo branca suada, bermuda vermelha até o joelho e chinelos de dedo, que levantam areia a cada passo na areia fofa. O figurão se aproxima de fregueses recém-sentados e habla español. Silêncio. Nenhum dos três jovens – um loiro de regata com cara de criança e corpo de velho, um baixinho sem camisa que não para de gesticular enquanto fala e um japonês ainda com roupa de borracha – responde ao garçom fanfarrão. Ele continua falando como se os clientes fossem hermanos, mas, com certeza, traído por um sorriso de canto de boca e olhos malandros, sabendo que eram brasileiros. O baixinho, confuso, fala com a boca e com as mãos: “opa, então, tudo certo?”, tentando mostrar ao garçom supostamente lesado que ele era local. Vendo a ingenuidade e a falta de reciprocidade da brincadeira, o garçom finalmente fala como filho da pátria amada, Brasil: “e aí, rapaziada, fiquem a vontade, já volto pra atender vocês e desculpa pela brincadeira”, com sorriso fácil e sotaque nordestino, o brincalhão sai às pressas, chamado pelo patrão. Sobe as areias quentes com certo cansaço, passando por várias mesas – um casal de turistas se beija depois de comer fritas com maionese, ketchup, mostarda e pimenta; dois gordos e dois magros tomam a sétima cerveja e falam alto; três mulheres com biquínis pequenos e curvas bem moldadas não consomem – apenas aproveitam a sombra do guarda-sol; um surfista cansado devora uma tigela de açaí, congelando seu cérebro. “Mesa 11, rápido!”, informou a voz de alguém no interior do bar. Com uma garrafa de Bohemia na mão e uma lata de guaraná na outra, o bigodudo agora desce até a mesa 11. Dropa a garrafa e a lata na mesa e serve um senhor, de óculos aviador Ray Ban, de cerveja e uma jovem morena de olhos azuis, de guaraná. Ao dar as costas, solta o riso. Na mesa 17 (a dos três jovens ‘argentinos’), o japonês está com o braço levantado. Quando o garçom chega, ele pede uma Original e três copos. O loiro com cara de criança pede um isqueiro e o garçom tira da pochete um acendedor simples, vermelho. O loiro agradece. Ao sair, o garçom parece pensar que os três ainda não esqueceram e não gostaram da brincadeira e pede desculpas de novo, tentando ser gentil. Ao mesmo tempo, os três respondem: “que isso, irmão, tá sossegado!”, “pô, relaxa, de boa!” e “valeu, bom trabalho aí”. Relaxado, o nordestino passa pelas mesas recolhendo garrafas e vasilhas vazias e as leva para a cozinha. Nenhum pedido para entregar, se encosta no concreto que sustenta a construção do bar e, com as mangas da camisa, seca o suor do rosto. Aproveita a brisa fresca que alivia seu rosto queimado. Ele não percebeu, mas passaram-se dez minutos e o japonês da mesa 17 está com o braço levantado de novo. O garçom se desencosta e vai até ele. “Pô, irmão, não sei se esqueceram, mas a gelada ainda não veio”, reclama educadamente o oriental. “Caralho, esses caras são uns folgados!!! Parece que não querem trabalhar, porra! Ô, Jurandir, cadê a cerveja dos caras?”, grito de um garçom para outro. “Aí, galera, já vou pegar pra vocês, foi mal aí.” Encabulado, ele vai atrás da cevada líquida. No meio do caminho, encontra o Jurandir que estava com a gelada na mão. “Pô, Jurandir, que vacilo!”, fala pegando a cerveja da mão do outro e levando até seus clientes. “Tá aí, galera”. “Valeu, irmão!”, agradece o baixinho com o polegar levantado. O garçom volta a sua rota procurando por clientes que queiram seu auxílio. Em um primeiro momento, ninguém. Repentinamente, poucos segundos depois, três mesas (9, 4 e 12) pedem a conta. Ele olha para o céu e percebe que a trovoada de sul está chegando em alta velocidade. O ar já começa a ficar úmido com o vento gelado. As bundas para cima, divididas por um fio; os gordos com cor-de-turista e os surfistas começam a recolher suas trouxas para fugir do temporal. Mas os clientes das mesas amarelas ficam refém das contas que tem que pagar. Os garçons correm. Os três jovens da mesa 17 não se mexem, mas mesmo assim o garçom moreno com sotaque nordestino vai até eles. “E aí, moçada. Se quiserem, posso levar a mesa lá pra dentro.” Os três respondem que estão esperando um amigo que está na água e vão esperar até a chuva chegar. Aí o garçom prevê: “tranquilo, então (olha para o céu), é, a chuva vai chegar daqui uns doze minutos”. Doze minutos depois, o loiro de regata com cara de criança e corpo de velho, o baixinho sem camisa que não para de gesticular enquanto fala e o japonês de roupa de borracha se levantam e pagam a conta. A chuva chega forte. Não há mais clientes nas mesas e cadeiras amarelas. O garçom vai para dentro do bar e agradece a chuva e o vento. Agora ele anda sobre um pavimento firme, não torra no sol e tem menos clientes para atender.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

a praia
quando chove e a maré baixa
me deixa triste pra burro
depois desse charuto

Tempo

Por ora, gostaria de atar-me a ti tempo
Deixe-me alcançar o momento, liberte-me dessa queda óbvia
Essa queda duradoura, em quê poderei me ater?
Tempo que me isola dum mundo chamado passado, só acessível por uma estrada ilusória chamada lembrança
Passado, permita-me chamar a ti vestígios do declínio?
Sei bem, tempo, que exerces tua função com perfeição
Mas diga-me, meu bem, por que és tão inexorável?
Suplico que cesse seu ofício, por um instante que seja
Para que possa, então, encontrar-me mais perto de ti
Tempo, lento tempo
Fator da minha queda, estrela do meu infinito, consequência da minha consciência, tic, tac, tic..
Que farias, tempo, não obstante tua força e beleza, sem teu nobre irmão espaço?
Talvez não sejas tão grande assim, meu obstinado companheiro
Bastaria apagar minha mente para estraçalhar-te e, no entanto, aparentas ser eterno
Já chega, tempo, cansei da tua altivez, liberto-me de ti para preencher o espaço em toda sua amplitude
Essa tua vontade de ser matou meu espírito, eis agora a redenção de meu corpo...

Reflexões de Jhá

Criei um vínculo com o além da vida
Por via da arte, dou vida à morte
Ou melhor, deixo-a falar em mim
Viro porta-voz fantasmagórico de algo que faz parte de mim, mesmo sem nunca se manifestar sem um disfarce
É o que eu faço: disfarço a morte de vida com imaginação e movimento
Essa imaginação que não sabemos da onde vem,
Esse movimento que é feito de instantes e cujo término já é início de um outro ciclo
Dialetizo o mundo e me duplico ao infinito, gerando inúmeras imagens de partes de mim
E o que "jamais tem nome nem nunca terá", a palavra morta, ganha cor e vida num poema, música, desenho..
Mas pra quê tudo isso? Seria a busca por uma esperança para a vida na guerra? Ou apenas fluxo instantâneo de prazer querendo se materializar?
Talvez, gozo esfacelado pelo desejo de vida?
Só sei que enquanto sentir o vento da mudança, sinto também que não ando em círculos
E sigo, mesmo que às vezes me sinta à deriva
Já o velho que não se cansa de cansar, cansa da vida.. que também é morte que também é vida

eucorpo

Essa cabeça que gira
no eixo do meu pescoço
pesa um peso que existe:
há coisas dentro!

Um leve mau-jeito
faz-me lacrimejar
um simples rodar
faz-me inflar o peito

Não sou mais que esse
todo único e móvel
que pelas ruas e veias
flui, vai, cai...
(preguiçosamente)

Essa cabeça que gira
no eixo do meu pescoço
sem pescoço não gira
sem os olhos não ri
sem os braços não ama
sem as pernas não sofre
sem o peito não diz
sem a bunda não chora
sem o pinto não pode
sem o pulmão não vive

Vida, sou Frida Kahlo

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Noite no quarto

Na dor
Há mor-
Temo.

Termo
Morte
Assus-
Assusta.

E eu
Que penso
E penso
Sinto de longe
Uma vontade de
Chorar.

Pois olho pelo quarto e
Cada vez mais claro
Meus olhos
Enxergam os monstros
Do armário
Aberto
Dessa
Parede onde projeto
Os castelos de algum
Século
Dessa
Janela que anuncia
O baile dos insetos menores
Que zombam baixinho
No meu ouvido

Nada que eu tenha visto...

Mas há dor
Pois choro demais
Se sei onde estás
Mas quem provará?

Na minha cabecinha
De doce menina
Bem comportada
Espetos e enxadas
Inchados insetos
Cavalgam pelas
Colinas do meu cérebro.

E eu sei,
Embora,
Nada que eu tenha visto...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

contorno

escapa da repetição
goza sem perdão
sai do sentido
encontra o abismo

cai no vazio
chora sem pio
vai pro chão
coloca as mãos

volta pro alto
olha pro chão
já se arrepende
começa novamente

Só Estou Sangrando

Escuridão ao meio dia, sombras até mesmo na colher de prata. A lâmina artesanal, o balão de criança, eclipses do sol e da lua; pra te fazer entender, desde cedo, que não há motivo em tentar.

Blefam com desprezo no gozo, notas suicidas são rasgadas. O chifre oco brinca de gastar palavras, pra avisar que ele não está ocupado nascendo, e sim, ocupado morrendo.

A página da tentação voa porta afora, então você procura e acha a si próprio em guerra. Vê rugir cascatas de penas, sente como nunca um gemido e descobre que é só mais um chorando.

Então não tema ao ouvir um som estranho ao ouvido. Tudo bem, mãe. Tô suspirando.

Uns ganham e outros perdem. Motivos particulares, pequenos ou não, podem ser vistos nos olhos dos que dizem aos que vão morrer: "que rastejem". Enquanto outros dizem: "não odeie nada, exceto o próprio ódio".

As palavras de desengano feito balas, os deuses apontados como alvos. Fizeram tudo de armas de brinquedo faiscantes da Cor-de-Cristo que brilham no escuro. É fácil de ver sem olhar muito de longe que nada é realmente muito sagrado.

Enquanto pastores pregam os males do destino professores ensinam que o saber espera e pode levá-lo a placas de cem dólares. A bondade se esconde atrás dos portões, mas de vez em quando, até o presidente dos Estados Unidos precisa ficar nu.

E mesmo que as regras da estrada tenham sido apresentadas, é só do jogo das pessoas que se tem que desviar. Tá tudo bem, mãe. Eu não consigo.

Cartazes publicitários querem convencê-lo de que você é o único que pode fazer o que nunca foi feito, vencer o que não foi vencido. Enquanto isso, a vida continua ao seu redor.

Você se perde e reaparece. Descobre, de repente, que não há nada a temer. Até que, sozinho e sem ninguém, ouve uma voz trêmula distante, obscura, que assusta aos seus ouvidos dormindo "alguém pensa que eles te pegaram".

Uma questão em seus nervos é acesa. No entanto, você sabe que não há nada que o satisfaça e que não faça desistir de manter em mente que, não é a ele, a ele, a eles, ou àquilo que você pertence.

Embora os mestres façam as regras para sábios e tolos, eu não tenho nada, mãe. Nada pra me incentivar.

Enquanto os que devem obedecer estritamente a autoridade não a respeitam de qualquer forma, desprezam seus empregos, seus destinos, falam invejosos dos que são livres. Cultivam flores para serem nada além que investimento.

Enquanto alguns, batizados em princípios aos laços da plataforma partidária, em clubes sociais para disfarçar os que não se enquadram e que podem criticar livremente, só nos dizem a quem idolatrar e então "Deus o abençoe".

Enquanto aquele que canta com a língua em fogo gargareja em corridas de ratos, dobrado disforme por alicates da sociedade, tomando o cuidado de não te trazer muito pra cima e sim para o buraco em que ele se encontra.

Mas, não zango nem culpo qualquer um que viva em um cofre. Tudo bem, mãe, se eu não conseguir agradá-lo.

Idosas olham e julgam pessoas em pares. Limitadas no sexo se atrevem a fingir uma falsa moral, insultar, encarar. Enquanto o dinheiro não fala, pragueja. Obscenidade, quem realmente se importa? Propaganda, é tudo falso.

Enquanto os que defendem o que não podem ver com um orgulho assassino e segurança, isso sopra na mente amargamente. E aos que pensam que uma morte honesta não lhes cairá naturalmente, "a vida às vezes tem de ser solitária".

Meus olhos se chocam com mausoléus estofados. Deuses falsos, eu desprezo. A mesquinhez, sob mão algemadas, eu chuto até acabar. Digo, tudo bem, eu já tive o bastante. O que mais você pode me mostrar?

E se os meus sonhos pudessem ser vistos, provavelmente me colocariam a cabeça na guilhotina. Mas tudo bem, mãe. É só a vida, e a vida simplesmente.







segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Desrazão

Colhida a última vítima receada
Broches desafinam suavemente no decote aveludado da negra solitude
Pronto a colar grau
Recebe a máfia em sua casa minha própria
Vaga, bundo, onde estou?
Fecho os olhos e grito
Assombro a mim e tu foges dele
Água, pêsames e pêlos na boca
Estufo o peito e peido
A mim, cabe te acabar..

Dôo o coraçao, palpitando em minha mão, para que dividamos o sofrimento que gozamos
Amor é um cuspe na lata vazia... alguns cuspes
Derramor, derradeira novi dade
São os noves
Novecentos dias
Renovado

Recebo um coração
Veio assado - é a fome
Os dias passam, meu espelho murchou
Tristeza
Sinto-me fulo
Banal
Bananal
Desprezo desse dividendo
As partes baixas são da crueza do mal que assola a sola

O mal-estar freudiano: freudismo, doença mental, de raciocínio talvez
Sou eu quem perece..

Eu e eu

eu erro
quando me calo
um berro que não tem voz
eu rio
já nasci torto
tento me acertar na foz

eu nado
nada me muda
muda no mundo o que fiz
eu muda
já tenho flores
ainda não criei raíz

eu mudo
quando me calo
e deixo o silêncio falar
eu falo
e nada me falta
só deixo o tempo passar

eu passo
e a cada passo
encontro um novo caminho
eu canto
e em cada canto
descubro mais um pouquinho

blues



édicas histéricas ricas
histórias épicas sem sentido
nóias blefes testes
sexo oco em vão
pai mãe irmão

vazio que encontro à noite
luz música álcool ação

sábado, 8 de outubro de 2011

Fuga

Lambujado os caramujos
Caramelos-marujos

Lambida as caras moras
Caras-mortas

Cordas cortam teus pulsos...

Corre, burro, corre, burro!

Reis corroem teus sustos...

Chore, burro, chore, burro!

Zurros surram tua morada..

e rajos rojam jarros
e ratos raiam jorros

Raros mujos, prazos curtos..

Rugidos, caramujos, reis e ratos sujos



Pulo

Queda
do alto
desta
nuvem

rumo
reto
ao oceano.

Vim ver o ar que existe
por meio milésimo
quando o corpo rompe o mar,
quando a água cava a água.

Ele está sempre pronto
pro novo;
há espuma, não há o que temer.
"shhhhhhh..."

contem!

Hoje fui pagar uma conta.
Na lotérica, conto dez, vinte
vinte e cinco pessoas na fila, na frente
Demorou. E fiquei sem um mísero conto
Na conta, zero. Mas,
afinal, quanto mesmo isso conta?

“Veja, meu filho, esta fila gigante!
Isto é época de greve:
Banco fechado,
lotérica lotada.
Servidor parado,
orçamento esgotado
Carteiro dormindo,
tá tudo atrasado!”

Minha senhora, me desculpe,
que visão limitada!
Caíste num conto,
um conto de fada.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Causa e Efeito







Manoel sente dores regulares nas pernas.
E, toda manhã, ao acordar, se masturba.

Não é provável que exista relação entre as duas coisas.

Semblante


Semblante surdo, sangrando louco, fugido no escuro

Semblante mudo,
dançando tango, abismo além-muro

Semblante nulo
, desencantado, "estorvo-chora-turvo"

Semblante chulo
que em bordeis segue o rumo de ninguém

E se cimenta sob o céu da noite cálida

E se esconde dentre vozes semi pálidas


E se apaga sob um véu envolto em mágoa

Têmporas

fui escrever em tons pastéis
sobre doenças e remédios
falei do ópio e do tédio
do glamour e do Chateau

cansei das loucas desvarridas
dos degraus irregulares
e da dor

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

verso

versos me vêm no tédio,
me tiram do mundo real ilusório
e levam-me,
de barco,
ao mundo ilusório real.

o vento é sul,
mal preciso remar,
vou só no balanço:
versos e vento ao mar

Continua..

vamos juntar todas as letras
organizar mutirões
teclas, dedos, mãos, canetas
em palavras e orações

vamos cultivar ideias
compartilhar fantasias
quem sabe fazemos delas
contos e poesias

terça-feira, 4 de outubro de 2011

zzzzz

O filho da puta não me deixava dormir. Parecia querer entrar na minha mente pelo ouvido. Mas na verdade o que o atraía era só o cheiro do meu banho esquecido.