terça-feira, 15 de novembro de 2011
Fardo de mim só
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
providência
Eu estava no fundo do ônibus, naquela última fileira, e ocupava três lugares. No meu lado direito, o banco da janela, deixei minha mochila e meu violão e, à minha esquerda, minha mala de rodinhas com roupa suja. Uma senhora morena, com rosto marcado por rugas e olhar cansado sentava à frente do violão e apoiava a cabeça na janela. No outro canto da última fileira, estava uma moça simples de uns 20 anos e na frente dela, outra moça simples de uns 20 anos. Nos outros lugares perto de mim não tinha mais ninguém.
Depois de uns cinco minutos de passeio, entrou um velho de mais ou menos 60 anos. Usava um pulôver azul marinho, uma camisa social azul claro por baixo, jeans e sapato. O cocuruto já estava careca e sua barba era branca e rala. Seus óculos de armação fina e dourada e lentes grossas, somados a um ar de aristocracia, pareciam entregar seu sofrimento por estar no coletivo.
Coloquei minha mala no colo, mas o velho sentou na minha frente – com metade da bunda para fora do assento e as costas na diagonal – ao lado da senhora que, para ele, podia ser sua faxineira. Do alto de sua cara fechada, olhou a mulher de cima a baixo, que percebeu e revidou com um olhar cabreiro. O velho, por sua vez, mandou a tréplica, agora com um ar de superioridade e nojo. Nenhuma palavra foi pronunciada.
Mais umas três, quatro paradas e entra um casal de jovens pombinhos. O rapaz tinha, no máximo 19 anos, era narigudo, tinha rosto e cabelo ensebados e vestia um moletom canguru preto. Transmitia insegurança, quando falava não se ouvia nada. A moça era o oposto, falava muito e alto demais e, apesar de ser toda desengonçada, parecia ter muito amor para dar.
Botei minha mala de roupa suja no colo de novo. Desta vez, o assento em que a mala descansava foi ocupado logo depois – a menina sentou sua bunda mole ao meu lado, entre eu e seu suposto namorado. No início trocaram carícias contidas e conversaram um pouco. Ela só falava merda e o cara só concordava.
Depois de mais uns cinco minutos na grande lata coletiva, a moça simples de uns 20 anos que estava na penúltima fileira puxou a cordinha e tomou seu rumo. Mal ela saiu e o casalzinho se levantou e pulou para o lugar vagado. O casal brigou pelo banco da janela como dois irmãos tolos que brigam todo dia. Ele ganhou e, para comemorar, lançou um baita sorriso maroto para amada.
Voltei minha mala de rodinhas para o assento ao meu lado esquerdo, para felicidade das minhas pernas.
Por longos minutos o casal manteve um entrelaçamento de mãos, pernas e línguas, para horror do velho, que agora estava na mesma fileira dos dois, separado apenas pelo corredor. A cada barulhinho de saliva ou estalo de lábios, a barriga dele parecia se embrulhar e, como que por instinto, olhava com nojo e reprovação para os dois pombinhos que, felizes da vida, nem notavam o moralista.
Foi na última parada, antes de o ônibus entrar no terminal, que o velho desceu – o ponto da Assembleia Legislativa, a casa das leis. Na calçada, dois negões e um cara com dreads andavam tranquilamente.
Parou nos degraus, por um instante, ao perceber os três pedestres que se aproximavam. E olhou para os dois lados, com medo, à procura de uma saída segura.
De repente, ficou tranquilo e desceu do ônibus.
Tentei imaginar o motivo da súbita confiança do velho. Talvez eu tivesse sido preconceituoso, talvez ele só hesitara nos degraus por não ter certeza do ponto onde deveria parar.
Então, torci todo o meu pescoço à direita, para tentar alcançá-lo com os olhos. Quanta tranquilidade, seu rosto até estava iluminado! – de azul e vermelho, que se revezavam com o giro das sirenes.
Duas viaturas, cercadas por uns quinze policiais mal encarados, que exibiam pistolas ou fuzis, estavam estacionadas logo atrás. Ainda bem. Se eles não estivessem ali, com certeza, o pobre velhinho passaria por apuros. Mais uma vez, os homem mostraram que o bem sempre vence o mal.
domingo, 6 de novembro de 2011
Ode ao amor
Pra mim,
Eu te quis então.
A tua solidão,
A minha solidão,
É isso o que me interessa:
A não pressa com as presas que dispomos
E laçamos, enfim,
O touro estabanado que mugia, há pouco,
Dentro de nós.
Não laçar:
Eis aí minha glória final,
Meu púlpito magistral de quem hoje ergue a espada e a voz,
Que dilaceram corações mesquinhos e
Cantam aos passarinhos a natureza dos sóis,
Mas que outrora já foi sim,
Escravo da falta maior.
O buraco inconfundível da intersecção chama-se “nós”,
Entidade essa que guardamos com os braços.
(mas os braços
são apenas braços:
requer-se mais!)
À maneira como os macacos dominaram um pedaço de osso,
- causa prima do nascimento do moço –
Criamos esses utensílios que alcançam mais
Que os braços,
Para então guardar com toda precisão,
O outro
Pra mim.
Homem-objeto-mundo
Homem-objeto-homem
Pela falta da posse,
Canto ao amor essa ode.
(cante)...
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Nós
Desamarrar é diluir-se,
Estar livre
No deserto caminho
Da morte.
As certezas são nós
Nos fios sempiternos do eu.
(ideias, ideias,
palavras tão prontas,
verdades que erguem
a fortaleza magnífica:
bombas e canhões que aqui sou eu!)
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
insônia
as folhas da bananeira
que o vento balança lá fora,
sussurram-me, devagarinho,
"dorme..."
mas eu não quero.
Aunque sea lo mismo, no soy yo acá
"Pocas mujeres pueden ser elegantes y lascivas al mismo tiempo. Yo aprecio la elegancia. Al ir en el estudio por cualquier razón, siempre cruzo con alguna balzaquiana, bien vestida. E incluso si estas mujeres no están a la altura de su belleza, me excitan. Me hacen pensar en lo que podría hacer en una hora encerrado com ellas, si tuviera la oportunidad. Cerrado durante una hora, para sumergir su boca-de-labios-importados entre las piernas y mi boca en las suyas. (...) Clavar las uñas en la piel madura mientras que el olor de la ingle raspada se extienda".
Carlos Fuentes
domingo, 30 de outubro de 2011
Presente
Se outrora fora dúvida,
por fraqueza, ou por fantasmas,
a certeza que hoje tenho
do bouquet a que pertenço,
lamento.
Pior seria a ciência que,
salve, não tenho,
de ser colhido e posto em vaso,
descontente com o que sinto.
Agradeço ao que pertenço
com amarras que ostento.
É de ganas o bouquet.
Reunido por teu vento,
que sopra.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Tai velho
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
canção da liberdade
pras pessoas
pros encontros
desde a tarde
à madrugada
sei que não é nada
todo esse dilema
falso-problema
força reativa
aqui está a vida
pelo menos agora
e isso também
é só o que sei
das voltas
que o mundo dá
há anos
zilhões de tempo
super-espaço
pra toda e única
sortuda vida
ser
em paz
mas os homens
merecem um só verso
de três palavras:
mas os homens
mas os homens
etc.
só por isso
porque hoje
sinto vivo
todo Não
deixo o grito virar canção
e parto comigo
ao infinito que existe
de barco e remos às mãos
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
alívio de sul
Primavera, horário de verão. Praia da Joaquina, Florianópolis, 27ºC de uma sexta-feira ensolarada. Na areia, bundas para cima, divididas por um fio; gordos com cor-de-turista; surfistas descansando e surfistas se aquecendo; mesas e cadeiras de plástico amarelo ocupadas pela mais variada classe de clientes e, entre eles, garçons se revezam servindo cerveja e petiscos. Entre eles, um se destaca. Alto; meia-idade; pele morena marcada pelo sol forte; sorriso no rosto, parcialmente encoberto por um bigode grisalho; barriga de chope. Como todos os funcionários do bar, veste uma camisa polo branca suada, bermuda vermelha até o joelho e chinelos de dedo, que levantam areia a cada passo na areia fofa. O figurão se aproxima de fregueses recém-sentados e habla español. Silêncio. Nenhum dos três jovens – um loiro de regata com cara de criança e corpo de velho, um baixinho sem camisa que não para de gesticular enquanto fala e um japonês ainda com roupa de borracha – responde ao garçom fanfarrão. Ele continua falando como se os clientes fossem hermanos, mas, com certeza, traído por um sorriso de canto de boca e olhos malandros, sabendo que eram brasileiros. O baixinho, confuso, fala com a boca e com as mãos: “opa, então, tudo certo?”, tentando mostrar ao garçom supostamente lesado que ele era local. Vendo a ingenuidade e a falta de reciprocidade da brincadeira, o garçom finalmente fala como filho da pátria amada, Brasil: “e aí, rapaziada, fiquem a vontade, já volto pra atender vocês e desculpa pela brincadeira”, com sorriso fácil e sotaque nordestino, o brincalhão sai às pressas, chamado pelo patrão. Sobe as areias quentes com certo cansaço, passando por várias mesas – um casal de turistas se beija depois de comer fritas com maionese, ketchup, mostarda e pimenta; dois gordos e dois magros tomam a sétima cerveja e falam alto; três mulheres com biquínis pequenos e curvas bem moldadas não consomem – apenas aproveitam a sombra do guarda-sol; um surfista cansado devora uma tigela de açaí, congelando seu cérebro. “Mesa 11, rápido!”, informou a voz de alguém no interior do bar. Com uma garrafa de Bohemia na mão e uma lata de guaraná na outra, o bigodudo agora desce até a mesa 11. Dropa a garrafa e a lata na mesa e serve um senhor, de óculos aviador Ray Ban, de cerveja e uma jovem morena de olhos azuis, de guaraná. Ao dar as costas, solta o riso. Na mesa 17 (a dos três jovens ‘argentinos’), o japonês está com o braço levantado. Quando o garçom chega, ele pede uma Original e três copos. O loiro com cara de criança pede um isqueiro e o garçom tira da pochete um acendedor simples, vermelho. O loiro agradece. Ao sair, o garçom parece pensar que os três ainda não esqueceram e não gostaram da brincadeira e pede desculpas de novo, tentando ser gentil. Ao mesmo tempo, os três respondem: “que isso, irmão, tá sossegado!”, “pô, relaxa, de boa!” e “valeu, bom trabalho aí”. Relaxado, o nordestino passa pelas mesas recolhendo garrafas e vasilhas vazias e as leva para a cozinha. Nenhum pedido para entregar, se encosta no concreto que sustenta a construção do bar e, com as mangas da camisa, seca o suor do rosto. Aproveita a brisa fresca que alivia seu rosto queimado. Ele não percebeu, mas passaram-se dez minutos e o japonês da mesa 17 está com o braço levantado de novo. O garçom se desencosta e vai até ele. “Pô, irmão, não sei se esqueceram, mas a gelada ainda não veio”, reclama educadamente o oriental. “Caralho, esses caras são uns folgados!!! Parece que não querem trabalhar, porra! Ô, Jurandir, cadê a cerveja dos caras?”, grito de um garçom para outro. “Aí, galera, já vou pegar pra vocês, foi mal aí.” Encabulado, ele vai atrás da cevada líquida. No meio do caminho, encontra o Jurandir que estava com a gelada na mão. “Pô, Jurandir, que vacilo!”, fala pegando a cerveja da mão do outro e levando até seus clientes. “Tá aí, galera”. “Valeu, irmão!”, agradece o baixinho com o polegar levantado. O garçom volta a sua rota procurando por clientes que queiram seu auxílio. Em um primeiro momento, ninguém. Repentinamente, poucos segundos depois, três mesas (9, 4 e 12) pedem a conta. Ele olha para o céu e percebe que a trovoada de sul está chegando em alta velocidade. O ar já começa a ficar úmido com o vento gelado. As bundas para cima, divididas por um fio; os gordos com cor-de-turista e os surfistas começam a recolher suas trouxas para fugir do temporal. Mas os clientes das mesas amarelas ficam refém das contas que tem que pagar. Os garçons correm. Os três jovens da mesa 17 não se mexem, mas mesmo assim o garçom moreno com sotaque nordestino vai até eles. “E aí, moçada. Se quiserem, posso levar a mesa lá pra dentro.” Os três respondem que estão esperando um amigo que está na água e vão esperar até a chuva chegar. Aí o garçom prevê: “tranquilo, então (olha para o céu), é, a chuva vai chegar daqui uns doze minutos”. Doze minutos depois, o loiro de regata com cara de criança e corpo de velho, o baixinho sem camisa que não para de gesticular enquanto fala e o japonês de roupa de borracha se levantam e pagam a conta. A chuva chega forte. Não há mais clientes nas mesas e cadeiras amarelas. O garçom vai para dentro do bar e agradece a chuva e o vento. Agora ele anda sobre um pavimento firme, não torra no sol e tem menos clientes para atender.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Tempo
Deixe-me alcançar o momento, liberte-me dessa queda óbvia
Essa queda duradoura, em quê poderei me ater?
Tempo que me isola dum mundo chamado passado, só acessível por uma estrada ilusória chamada lembrança
Passado, permita-me chamar a ti vestígios do declínio?
Sei bem, tempo, que exerces tua função com perfeição
Mas diga-me, meu bem, por que és tão inexorável?
Suplico que cesse seu ofício, por um instante que seja
Para que possa, então, encontrar-me mais perto de ti
Fator da minha queda, estrela do meu infinito, consequência da minha consciência, tic, tac, tic..
Que farias, tempo, não obstante tua força e beleza, sem teu nobre irmão espaço?
Talvez não sejas tão grande assim, meu obstinado companheiro
Bastaria apagar minha mente para estraçalhar-te e, no entanto, aparentas ser eterno
Já chega, tempo, cansei da tua altivez, liberto-me de ti para preencher o espaço em toda sua amplitude
Essa tua vontade de ser matou meu espírito, eis agora a redenção de meu corpo...
Reflexões de Jhá
eucorpo
no eixo do meu pescoço
pesa um peso que existe:
há coisas dentro!
Um leve mau-jeito
faz-me lacrimejar
um simples rodar
faz-me inflar o peito
Não sou mais que esse
todo único e móvel
que pelas ruas e veias
flui, vai, cai...
(preguiçosamente)
Essa cabeça que gira
no eixo do meu pescoço
sem pescoço não gira
sem os olhos não ri
sem os braços não ama
sem as pernas não sofre
sem o peito não diz
sem a bunda não chora
sem o pinto não pode
sem o pulmão não vive
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Noite no quarto
Há mor-
Temo.
Termo
Morte
Assus-
Assusta.
E eu
Que penso
E penso
Sinto de longe
Uma vontade de
Chorar.
Pois olho pelo quarto e
Cada vez mais claro
Meus olhos
Enxergam os monstros
Do armário
Aberto
Dessa
Parede onde projeto
Os castelos de algum
Século
Dessa
Janela que anuncia
O baile dos insetos menores
Que zombam baixinho
No meu ouvido
Nada que eu tenha visto...
Mas há dor
Pois choro demais
Se sei onde estás
Mas quem provará?
Na minha cabecinha
De doce menina
Bem comportada
Espetos e enxadas
Inchados insetos
Cavalgam pelas
Colinas do meu cérebro.
E eu sei,
Embora,
Nada que eu tenha visto...
terça-feira, 11 de outubro de 2011
contorno
Só Estou Sangrando
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Desrazão
Eu e eu
quando me calo
um berro que não tem voz
eu rio
já nasci torto
tento me acertar na foz
eu nado
nada me muda
muda no mundo o que fiz
eu muda
já tenho flores
ainda não criei raíz
eu mudo
quando me calo
e deixo o silêncio falar
eu falo
e nada me falta
só deixo o tempo passar
eu passo
e a cada passo
encontro um novo caminho
eu canto
e em cada canto
descubro mais um pouquinho
blues
sábado, 8 de outubro de 2011
Fuga
Pulo
contem!
Hoje fui pagar uma conta.
Na lotérica, conto dez, vinte
vinte e cinco pessoas na fila, na frente
Demorou. E fiquei sem um mísero conto
Na conta, zero. Mas,
afinal, quanto mesmo isso conta?
“Veja, meu filho, esta fila gigante!
Isto é época de greve:
Banco fechado,
lotérica lotada.
Servidor parado,
orçamento esgotado
Carteiro dormindo,
tá tudo atrasado!”
Minha senhora, me desculpe,
que visão limitada!
Caíste num conto,
um conto de fada.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Causa e Efeito
Semblante

Semblante surdo, sangrando louco, fugido no escuro
Semblante mudo, dançando tango, abismo além-muro
Semblante nulo, desencantado, "estorvo-chora-turvo"
Semblante chulo que em bordeis segue o rumo de ninguém
E se cimenta sob o céu da noite cálida
E se esconde dentre vozes semi pálidas
E se apaga sob um véu envolto em mágoa
Têmporas
sobre doenças e remédios
falei do ópio e do tédio
do glamour e do Chateau
cansei das loucas desvarridas
dos degraus irregulares
e da dor
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
verso
Continua..
organizar mutirões
teclas, dedos, mãos, canetas
em palavras e orações
vamos cultivar ideias
compartilhar fantasias
quem sabe fazemos delas
contos e poesias
